Antes de escolher uma terapia para uma criança com comportamentos difíceis, vale entender por que nem toda abordagem tem a mesma comprovação, porque essa escolha decide o rumo de uma fase que não volta.
Quase sempre começa assim. É mais uma ligação da escola, o seu filho bateu de novo em um coleguinha, ou destruiu a sala numa crise que ninguém entendeu.
E naquela mesma noite, já sem saber mais o que fazer e com um aperto no peito, você abre o Google e digita alguma coisa como o que fazer quando meu filho bate na escola, criança agressiva o que fazer ou meu filho não obedece de jeito nenhum.
O que aparece na tela é uma avalanche de promessas, cada uma garantindo resolver tudo. É justamente aí que vale respirar e ter cuidado, porque a escolha que se faz nesse momento importa muito mais do que parece.
“Bater com frequência costuma ser a forma que a criança encontrou de lidar com algo que ainda não sabe resolver. E isso se ensina.”
O que é uma prática baseada em evidências
A primeira coisa que ajuda a se orientar no meio de tanta oferta é entender o que significa uma prática baseada em evidências.
É uma abordagem que foi colocada à prova muitas vezes, por grupos de pesquisa diferentes e independentes entre si, usando métodos rigorosos, e que nesse processo mostrou que funciona de verdade, e não apenas na convicção de quem a defende ou na história de uma única família que deu certo.
Quando falamos das linhas mais sólidas no cuidado do comportamento infantil, estamos diante de um corpo de pesquisa construído ao longo de décadas que já reúne milhares de estudos, depois reunidos em grandes revisões que somam tudo o que foi investigado para enxergar o que realmente se sustenta.
É esse acúmulo enorme que separa o eu acredito que ajuda do está demonstrado que ajuda. E é também por isso que a medicina séria no mundo inteiro trabalha sobre essa base, porque não se trata de moda nem de preferência pessoal, e sim do único caminho que protege quem está sendo cuidado de conclusões apressadas.
Nem toda abordagem serve para o mesmo problema
Do outro lado existe o que não é prática baseada em evidências. E aqui é preciso um pouco de honestidade e de calma, porque estar fora do padrão mais alto não transforma automaticamente tudo em charlatanismo, já que há linhas promissoras ainda em estudo e profissionais sérios em caminhos variados.
O que vale entender é que, para os problemas de comportamento especificamente, nem toda formação oferece a mesma resposta, e as abordagens com a evidência mais forte e mais replicada são as da linha comportamental.
Isso não quer dizer que outras linhas não tenham o seu valor em outros contextos e para outras questões. Quer dizer que, quando a queixa central é o comportamento difícil, agressivo ou desafiador da criança, faz muita diferença procurar um profissional com formação específica nessa área, e não apenas alguém que trabalha com outra abordagem ou que fez um curso rápido sobre o tema.
Some a isso o cuidado de desconfiar de quem promete cura, ainda mais uma cura rápida, para aquilo que a ciência não cura, de quem se apoia só em depoimentos emocionantes e nunca mostra um dado, ou de quem nunca deixa claro o que deveria melhorar no seu filho e como isso será acompanhado com o tempo. Se o profissional se incomodar no instante em que você pedir para ver as evidências do que propõe, o recado já está dado.
O risco silencioso é o tempo perdido
Os riscos de colocar uma criança com comportamentos desafiadores numa intervenção sem respaldo são maiores do que parecem, e nem sempre têm a cara que a gente imagina.
Antes de chegar aos extremos perigosos existe um risco silencioso e muito mais comum. É o das abordagens bem-intencionadas, sem qualquer perigo físico e muitas vezes conduzidas por profissionais sérios, que simplesmente não foram pensadas para tratar o comportamento e não reúnem, para esse problema específico, a comprovação que as abordagens comportamentais têm.
Escolher uma linha assim para uma queixa de agressividade ou de desafio constante raramente faz mal, mas também costuma não mudar o quadro. E é exatamente aí que mora o prejuízo, porque com uma criança o tempo nunca é um detalhe.
Os primeiros anos de vida são um período de desenvolvimento cerebral muito intenso, em que o cérebro está se moldando, formando conexões e respondendo melhor ao estímulo certo justamente nessa fase. A janela mais preciosa do desenvolvimento vai sendo ocupada enquanto o cuidado que faria diferença fica esperando a sua vez.
“Com uma criança, cada mês investido em algo que não leva a lugar nenhum é um mês que não volta.”
E existe um extremo que é risco de vida
Existe ainda um extremo que precisa ser dito com todas as letras, porque aí não é mais só de tempo perdido que se trata e sim de risco de vida. Circulam pela internet supostos tratamentos para autismo que não têm nada de terapia e são pseudociência perigosa.
Dois deles aparecem pelo tamanho do dano já documentado. O primeiro é o chamado CD ou MMS, o dióxido de cloro, que quimicamente não passa de água sanitária e mesmo assim é vendido como se curasse autismo, para ser ingerido ou aplicado na criança, e cujo uso órgãos de saúde associam a vômitos graves, insuficiência hepática e até a mortes.
O segundo é a quelação usada para tratar autismo, apoiada numa hipótese que a ciência já desmentiu, que resultou em falência renal e na morte de crianças, incluindo uma menina de cinco anos que teve parada cardíaca durante o procedimento.
Nada disso é uma linha terapêutica alternativa. É risco à vida sendo oferecido a famílias que só queriam ajudar seus filhos.
Afinal, o que é comportamento disruptivo
ale um passo atrás para nomear do que estamos falando quando dizemos comportamento disruptivo, porque não é a birra normal de qualquer criança nem a teimosia esperada de certas idades, e não é sobre uma criança que só não obedece de vez em quando.
Estamos falando de birras muito intensas que não cedem, de agressividade que se repete, daquela criança que bate na escola com frequência, de oposição e desafio constantes diante de quase toda regra. Um padrão que passa a atrapalhar a vida da criança em casa, nas amizades e no aprendizado, e que às vezes vem acompanhado de dificuldade de fazer amigos e de conflitos frequentes com os colegas.
Na linguagem clínica, quando esse padrão é intenso e persistente, ele pode se organizar em quadros como o transtorno opositivo desafiador, também chamado de TOD, e o transtorno de conduta. Reconhecer isso não é rotular a criança e sim entender que existe um caminho de cuidado desenhado exatamente para essas situações.
O que a ciência aponta como padrão ouro
E o que a ciência aponta como melhor caminho, o chamado padrão ouro, para crianças e jovens com comportamentos agressivos, disruptivos e inadequados, vem justamente da linha comportamental.
Na prática, isso aparece como a terapia comportamental, a orientação parental comportamental e, no campo do autismo e do desenvolvimento de habilidades, a análise do comportamento aplicada, a ABA.
As diretrizes de saúde mais respeitadas do mundo recomendam começar pela orientação aos pais antes de qualquer outra coisa. O ponto central é que o trabalho mais eficaz não é apenas o terapeuta sozinho com a criança na sala, e sim ensinar quem convive com ela todos os dias a responder ao comportamento de um jeito que reduz a agressividade e fortalece o vínculo ao mesmo tempo.
Isso tem uma implicação prática que vale dizer com clareza. Quando a queixa central é o comportamento, a escolha mais segura é uma abordagem comportamental com comprovação, e não uma linha que, por mais respeitável que seja em outros contextos, não foi desenhada para esse fim.
“Quando a queixa central é o comportamento, a escolha mais segura é uma abordagem comportamental com comprovação.”
É também aqui que mora a resposta prática para aquele pedido tão comum de como lidar com o comportamento sem gritar, porque é exatamente isso que a orientação parental ensina, formas de conduzir a birra e o desafio sem entrar no ciclo de gritar e ceder que deixa todo mundo exausto.
Conforme a criança cresce, em geral a partir da idade escolar, soma-se o trabalho direto com ela em formato cognitivo-comportamental, ajudando a reconhecer a raiva, tolerar a frustração e resolver problemas, mas quase sempre combinado ao trabalho com os pais e não no lugar dele.
Se você reconheceu o seu filho aqui
Um recado da Luana. Eu recebo no IDA muitas famílias exaustas, que já tentaram de tudo e ainda carregam uma culpa que não deveria ser delas. Se você está assim agora, respira. Não é falta de amor e não é falta de pulso, é que manejar comportamento se aprende, e existe um caminho com ciência para te ajudar nisso.
Se você chegou até aqui vindo daquela busca no meio da noite e reconheceu o seu filho em alguma parte deste texto, a mensagem mais importante é simples. Tenha calma para não escolher pela promessa mais bonita e procure profissionais com formação específica na área comportamental, que saibam explicar em que se apoiam e que aceitem mostrar as evidências do que propõem.
É exatamente esse o cuidado que oferecemos no IDA, com terapia comportamental, orientação parental e avaliação, sempre com base em evidências. A gente estuda de perto e o tempo todo aquilo que a pesquisa mostra de mais atual, propõe à sua família apenas o que tem respaldo, explica com todas as palavras o porquê de cada passo e tem a honestidade de dizer quando algo não é o mais indicado para o seu filho.
Se o comportamento do seu filho tem tirado o sono da sua casa, você não precisa continuar tentando adivinhar sozinha o próximo passo. A nossa equipe está aqui para conversar com você e entender, junto, qual caminho tem comprovação para o seu caso.
Fale com uma de nossas psicólogas!
Perguntas frequentes
Meu filho bate na escola, o que fazer?
O primeiro passo é conversar com a escola para entender o que costuma acontecer antes das agressões, e o segundo é procurar orientação com um profissional da área comportamental, porque bater com frequência costuma ser a forma que a criança encontrou de lidar com algo que ainda não sabe resolver, e isso se ensina, com técnicas que têm comprovação.
Meu filho não obedece de jeito nenhum, isso é normal?
Um certo grau de desobediência faz parte do desenvolvimento e aparece em fases previsíveis, mas quando a oposição é constante, intensa e começa a atrapalhar a rotina, as amizades e a escola, vale procurar avaliação, porque pode ser mais do que teimosia de fase, e quanto antes se entende, melhor.
É birra normal ou transtorno opositivo desafiador?
A diferença não está em um episódio isolado e sim no padrão, já que o transtorno opositivo desafiador envolve raiva, oposição e desafio frequentes e persistentes, por muitos meses, num grau acima do esperado para a idade. Só uma avaliação profissional pode dizer com segurança, e é ela que aponta o cuidado certo.
Qual terapia tem comprovação para comportamento agressivo e desafiador?
Para esse tipo de queixa, a evidência mais forte está nas abordagens comportamentais, com destaque para a orientação parental comportamental, e por isso importa escolher um profissional com formação específica nessa área, e não apenas alguém de outra linha ou que fez um curso introdutório sobre o assunto.
Como lidar com o comportamento desafiador sem gritar?
O caminho com mais comprovação é a orientação parental comportamental, que ensina a responder à birra e ao desafio de um jeito previsível e firme sem entrar na briga, dando atenção ao que a criança faz de bom e reduzindo, com o tempo, o espaço para o comportamento difícil acontecer.
Meu filho tem dificuldade de fazer amigos, quando devo me preocupar?
Preocupa quando a dificuldade é persistente, gera sofrimento na criança ou vem junto de agressividade e conflitos frequentes com os colegas. Nesses casos, uma avaliação ajuda a entender o que está por trás e a desenhar o apoio certo.
Referências
- NICE (Reino Unido). Antisocial behaviour and conduct disorders in children and young people, diretriz CG158
- NICE. Quality standard QS59, Quality statement 4: Parent or carer training
- AACAP. Practice Parameter for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Oppositional Defiant Disorder. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry
- Kaminski JW, Claussen AH. Evidence Base Update for Psychosocial Treatments for Disruptive Behaviors in Children. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, 2017
- Evidence-Based Psychosocial Treatments for Disruptive Behaviors in Children: Update, 2024
- Furlong M. et al. Behavioural and cognitive-behavioural group-based parenting programmes for early-onset conduct problems in children aged 3 to 12. Cochrane, 2013
- Leijten P. et al. Meta-Analyses: Key Parenting Program Components for Disruptive Child Behavior. JAACAP, 2019
- Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP). Dangerous Trend: Chlorine Dioxide and Autism
- Association for Science in Autism Treatment (ASAT). Chelation Treatment Summary
